Trace sua rota no Reino da Folia
O Carnaval de Salvador é uma festa monumental em virtude investimento envolvido, duração, quantidade de pessoas nas ruas, extensão dos circuitos, o volume da massa sonora dos trios elétricos e também por causa da – nunca é demais repetir – diversidade. Em meio a tantos acontecimentos, tamanha farra, com energia acumulada o ano inteiro para gastar nesses dias dionisíacos, muita gente acaba se perguntando: O que fazer? Onde ir? Onde eu me encaixo nessa folia? Música, dança e irreverência são marcas dos seis dias de festa que mudam a cara da capital baiana e cada um pode guardar e vivenciar momentos únicos.
Para o cantor Dão, no sábado de Carnaval já existe um destino certo: o Curuzu. “Eu me arrumo com toda alegria do mundo e sigo para Liberdade. Vou ver a saída do Bloco afro Ilê Aiyê. Para mim, é um dos momentos mais bonitos, do carnaval da Bahia. O maestro Mario Pan, dá o toque de abertura dos caminhos, para que o bloco, siga levando paz, e como sempre elevando às riquezas da mãe África. É lindo ver a negrada subir a ladeira entoando os diversos cânticos, todos juntos numa só voz, sem violência, com muita alegria.”, descreve. Esse ano, o tema do bloco é Pernambuco, uma nação africana e, como vem fazendo desde a década de 1970, deve reunir crianças, idosos, turistas e muitos moradores do bairro para ver a passagem do chamado “mais belo dos belos“.
Seguindo uma outra linha, a tradicional Mudança do Garcia também é um acontecimento digno de nota. “É um dos momentos mais divertidos e escrachados do Carnaval de Salvador”, afirma Gisele Nussbaumer, diretora da Fundação Cultural do Estado – FUNCEB. Todos os anos, na segunda-feira, o cortejo – formado por charretes, cavalos, batucadas, blocos independentes, militantes, políticos, intelectuais, artistas e anônimos – sai do final da linha do Garcia e invade com bom humor o circuito oficial do Campo Grande. Gisele lembra que a Mudança nem sempre tem destaque na mídia, mas é hoje o principal espaço para críticas e protestos abertos no Carnaval baiano. Sindicatos, partidos de oposição o movimento negro, entre outros, aproveitam a festa para dar visibilidade às suas bandeiras.
Outro que chama atenção para a Mudança é Érico Brás, o ator que interpreta o personagem Reginaldo no filme e na série televisiva Ó pai, ó! . Para ele, “ali o carnaval relê a sua Gênese. Vira uma festa popular, festa da carne, da curtição, da fantasia. Nesse dia a alegria é dobrada!”. É certo encontrá-lo fantasiado junto com os colegas do Bando de Teatro Olodum.
A Praça Castro Alves continua sendo marcante na preferência de alguns foliões. Na opinião do cineasta Cláudio Marques, “foi ali que o carnaval de Salvador aconteceu, se desdobrou e extrapolou os limites. Foi ali, na encruzilhada “Bahia” (Cidade Alta e Baixa, terra e mar), sob os olhares de Castro Alves, Glauber Rocha e Gregório de Matos que as coisas se fizeram. É lá que um novo carnaval poderá surgir, pois em nenhum outro lugar invenção aninha-se tão calorosamente com tradição”, filosofa.
Para o ator Márcio Nonato, o ponto de encontro é no Farol da Barra, concentração de onde partem os trios e blocos que desfilam no Circuito Dodô. “Lá a gente vê muitas coisas inusitadas, artistas cantando juntos, participações especiais, sempre tem alguma fechação. O ponto alto é o sábado, com a saída de Daniela Mercury sem cordas. Ela sempre faz alguma coisa apoteótica”, conta. Juntando os foliões de diversos blocos e a galera gay que se espalha desde o beco da Off Club, ali os trios são esperados por “um misturadão de gente”. Ele ressalta ainda que é um dos poucos espaços do circuito em que a ‘pipoca’ domina e tem algum conforto: “É fácil de chegar, tem banheiro perto, é mais espaçoso e não rola violência”.
Carnaval é atrás do trio
De acordo com a arquiteta Ana Paula Magalhães, a cada ano os espaços mudam e é difícil encontrar a turma em locais marcados. Para ela, isso foi substituído gradualmente pelos camarotes. Assim, chicleteira assumida, para ela o melhor da festa é correr atrás da banda Chiclete com Banana em qualquer circuito. “O Chiclete é o retrato da emoção de nosso carnaval. É uma banda antiga e muito carismática. Cada música deles faz passar um filme na minha cabeça, lembro de todos os meus verões”, se entusiasma.
Numa outra vertente, o folião pipoca Luciano Matos, dj e apresentador do programa Radioca, procura o resgate de outras tradições na avenida. “Para mim imperdível é ver o mestre Moraes Moreira voltando a puxar um trio e ver o encontro das duas escolas da guitarra brasileira no trio Retrofolia, com Retrofoguetes, músicos tocando guitarra baiana e a guitarrada da banda paraense La Pupuña”, indica.
Outras folias
No reino da folia existe espaço ritmos até mesmo considerados nada carnavalescos. Completando 16 anos, o Palco do Rock, montado no coqueiral da praia de Piatã, reúne este ano uma seleção de 36 bandas (13 de outros estados), com a expectativa de receber mais de 30 mil roqueiros. A Associação Cultural Clube do Rock da Bahia – ACCRBA, responsável pela organização do evento, se preocupou em criar uma programação que além dos shows, traz palestras, oficinas e espaço infantil. Um verdadeiro paraíso para aqueles que não se identificam com o clima frenético dos trios elétricos.
Também criando um circuito alternativo, a cantora Márcia Castro sugere: “O point do carnaval são os amigos reunidos, inventando uma festa dentro da festa. Um exemplo desses encontros é o Carrinho Multimídia, comandado por Ana Dumas. É uma instalação ambulante, uma celebração de amigos ao som de música de rua, de brau, universal. Vão chegar por lá todos aqueles abertos para o imprevisível da festa”. O encontro esse ano acontece no comecinho da noite de sexta, na rua Fonte do Boi, Rio Vermelho.
Recarregando as baterias
Como a festa nunca tem hora para começar ou terminar, em algum momento chega a hora de dar uma pausa. Para refazer os ânimos sem sair do clima, quem dá a dica é a jornalista e empresária Elaine Hazin: Praia do Porto da Barra. Estrategicamente situado entre os dois principais circuitos da folia, “é um ótimo lugar pra repor as energias durante o Carnaval. Tem um banho de mar maravilhoso, água quentinha e um pôr-do-sol que arranca aplausos de turistas e baianos. Lá se encontram todas as tribos da Bahia. A praia é dividida por áreas. Tem as famílias, que vão em peso, os descolados, caretas, playboys, artistas…se tiver sorte, pode encontrar com Caetano batendo palmas para o sol que está se pondo”, recomenda.







Adorei a matéria “Trace sua rota no Reino da Folia” principalmente porque foi escrita por minha filha Juju Protasio.
Comentário de mãe coruja
EXCELENTE MATERIA!!!Pense em algo na Bahia já rolo Duas vezes!